quinta-feira, 18 de maio de 2017

Resenha (e introdução) do livro Psicologia e Alquimia de C. G. Jung



           
            O interesse de C. G. Jung pela alquimia não surgiu de inopinado como uma escolha deliberada, muito menos como uma curiosidade a priori no intuito de explicar algum tópico específico de sua teoria. Ele conta em sua assim chamada “autobiografia” Memórias, Sonhos, Reflexões que foi após o início do seu confronto com o inconsciente que se deu seu encontro com a Alquimia. Esse encontro foi para ele uma experiência decisiva, onde ele encontrou as bases históricas da sua psicologia.
            Primeiro ele decidiu estudar seriamente os gnóticos¹, dado que na sua opinião, seu interesse se dava por eles terem “encontrado, a seu modo, o mundo original do inconsciente. Confrontaram-se com imagens e conteúdos que, evidentemente, estavam contaminados pelo mundo dos instintos” (JUNG, 2012, p. 247). Contudo,

A tradição entre a gnose e o presente parecia-me rompida e, durante muito tempo, não consegui encontrar a ponte entre a gnose – ou o neoplatonismo – e o presente. Só quando comecei a compreender a alquimia pude perceber que ela constitui um liame histórico com a gnose, e assim, através dela, encontrar-se-ia restabelecida a continuidade entre o passado e o presente. A alquimia como filosofia da natureza, em vigência na Idade Média, lança uma ponte tanto para o passado, a gnose, como para o futuro, a moderna psicologia do inconsciente (JUNG, 2012, p. 247).

            Mas antes de tomar contato com a Alquimia, ele teve alguns sonhos muito interessantes. No primeiro, que se repetiu várias vezes, ao lado da casa dele havia outra casa anexa que ele desconhecia. Quando finalmente conseguiu acessar encontrou em seu interior uma biblioteca repleta de livros dos séculos XVI e XVII. Nela haviam livros sobre alquimia ricamente ilustrados com gravuras de cobre e couro de porco. Ele chega a afirmar que “nos sonhos, sentia a fascinação indescritível que emanava deles e de toda a biblioteca” (JUNG, 2012, p. 249).
Em 1926 ele teve um decisivo sonho que anunciava seu encontro com a alquimia: em meio à guerra (presumivelmente a primeira guerra mundial ocorrida entre 1914 e 1918), ele foge com um homenzinho em uma carroça até entrar em um túnel após passar por uma ponte e sair na região de Verona (Itália). Lá ele avista uma casa senhorial semelhante ao castelo de algum príncipe da Itália do Norte. A curiosidade o leva a adentrar o pátio de tal modo deslumbrado que quando os portões foram fechados e ele se viu prisioneiro do século XVII, ao que reagiu resignado.
Este sonho o levou a estudar inúmeros livros sobre história mundial, história das religiões e história da filosofia, além do livro que Herbert Silberer escreveu sobre alquimia. Em suas palavras “quando o seu livro foi publicado, a alquimia me pareceu uma coisa marginal e bizarra, apesar de ter apreciado a perspectiva anagógica, isto é, construtiva”. Somente em 1928, ao tomar contato com o texto alquímico chinês, O segredo da flor de ouro, enviado pelo seu amigo e sinólogo Richard Wihelm é que ele pode se aproximar da essência da alquimia.
O primeiro livro estudado foi o Artis Auriferae Volumina Duo, de 1953. A partir daí ele compreendeu o significado do sonho anunciador de que ele “era um prisioneiro do século XVII”. Para superar as dificuldades do texto, decidiu “organizar um dicionário de palavras-chave com notas explicativas. Com o passar do tempo recolhi milhares de termos, e isso constituiu volumes inteiros de citações. Seguia o método puramente filológico como se estivesse decifrando uma língua desconhecida. Assim, pouco a pouco, foram fazendo sentido para mim as expressões dos alquimistas. Foi um trabalho que me absorveu por mais de dez anos” (JUNG, 2012, p. 251-52).
O estudo da alquimia permitiu que Jung compreendesse que o inconsciente é um processo e que as relações estabelecidas entre o ego e os conteúdos do inconsciente desencadeava uma metamorfose da psique. Eis o que afirma em suas Memórias: “Mediante o estudo das evoluções individuais e coletivas, e mediante a compreensão da simbologia alquimista cheguei ao conceito básico de toda de toda a minha psicologia, o ‘processo de individuação’” (JUNG, 2012, p. 256).
            Ele ainda afirma que um dos aspectos essenciais do seu trabalho foi desde cedo abordarem temas relacionados às concepções de mundo e do confronto com problemas religiosos. Nesta perspectiva, apenas em Psicologia e Religião (1940) e Paracelso (1942) é que ele pode apresentar suas concepções de modo mais detalhado.

Os escritos de Paracelso contêm um grande número de pensamentos originais nos quais aparece claramente uma preocupação com a alquimia, ainda que sob uma forma tardia e barroca. Foi o estudo de Paracelso que me levou a descrever a essência da alquimia, particularmente em suas relações com a religião e com a psicologia, ou melhor, à essência da alquimia em seu aspecto de filosofia religiosa. Realizei isto em Psicologia e alquimia (1944). Encontrei então o terreno que foi a base de minhas próprias experiências durante os anos de 1913 a 1917, pois o processo pelo qual passei correspondia ao processo de metamorfose alquimista, tema de Psicologia e alquimia (JUNG, 2012, p. 256).

            Esta grande obra (Psicologia e Alquimia) que compõe o volume 12 das Obras Coligidas², acima citada por Jung, é o foco central desta recuperação histórica. Ela é importante para demonstrar que a alquimia não está inserida nas obras de Jung por mero diletantismo erudito, mas justamente porque para Jung “o encontro com a alquimia foi [...] uma experiência decisiva; nela encontrei as bases históricas que até então buscara inutilmente” (JUNG, 2012, p. 247). Embora o tamanho da obra e o tema tratado possam parecer inabituais para a psicologia, ela foi muito bem recebida e causou surpresa ao seu autor, conforme podemos ler ao prefácio escrito para a segunda edição.
            A primeira parte é dedicada a uma explicação do simbolismo dos sonhos individuais e sua relação com a alquimia (SILVEIRA, 2011, p. 123). Ele chega a afirmar já no início do texto que as explicações ali contidas eram direcionadas ao leitor leigo e despreparado e que quem possuísse conhecimentos acerca da psicologia dos complexos (outro nome usado por Jung, além de Psicologia Analítica, para se referir à sua teoria psicológica) poderia prescindir delas. De acordo com Nise da Silveira, em seu livro Jung: vida & obra, este seria um dos capítulos mais belos já escritos pelo Jung (SILVEIRA, 2011, p. 124).
            Nesta introdução ele aborda questões do processo analítico, sobre a existência de um arquétipo da imagem de Deus na psique e sobre a religião como função psíquica (que ele chama de função religiosa da alma, não atribuindo a esta última nenhum caráter metafísico). “Qualquer que seja a natureza da religião, não resta a menor dúvida de que seu aspecto psíquico, empiricamente constatável, reside nessas manifestações do inconsciente” (JUNG, 2012, p. 41).

As ideias centrais do cristianismo radicam na filosofia gnóstica que, conforme as leis psicológicas, desenvolveram-se forçosamente no momento em que as religiões clássicas se tornaram obsoletas. Esta filosofia baseia-se na percepção dos símbolos do processo inconsciente de individuação, o qual se desencadeia quando se desagregam as representações coletivas principais que dominam a vida humana. Em tais períodos há necessariamente um certo número de indivíduos intensamente possuídos pelos arquétipos numinosos; estes últimos são impelidos à superfície, a fim de formarem as novas dominantes (JUNG, 2012, p. 48).

            A segunda parte é dedicada a uma minuciosa análise dos sonhos de Wolfgang Pauli, famoso físico quântico e prêmio nobel. Para que pudesse analisar os sonhos sem exercer nenhuma influência sobre o sonhador, ele incumbiu uma de suas alunas a observar o processo, que durou 5 meses. Durante três meses o sonhador fez sozinho análises sobre seus sonhos. E por quatro meses ele analisou seus sonhos sob a supervisão de Jung.

Assim, pois, 355 dos 400 sonhos foram sonhados independente de qualquer contato comigo. Apenas os últimos 45 sonhos ocorreram sob a minha supervisão. Não fora, feitas interpretações dignas de nota, pois o sonhador não necessitava de minha ajuda devido à sua excelente formação científica e ao seu talento. As condições portanto eram ideais para uma observação e registro isentos (JUNG, 2012, p. 53).

            O título deste capítulo, Símbolos oníricos do processo de individuação, se baseia justamente no fato de os símbolos oníricos do sonhador estavam “direta e exclusivamente relacionadas com a tomada de consciência do novo centro (designado por Jung como ‘si-mesmo’, ou o arquétipo da totalidade psíquica). Para Jung (2012, p. 51), “o si-mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é o centro da consciência”.
            A terceira parte é dedicada a uma introdução aos conceitos básicos da alquimia, tais como as fases do processo alquímico, a natureza psíquica da obra alquímica, a projeção de conteúdos psíquicos, a obra (opus) alquímica, o significado da ‘matéria prima’, o paralelo lápis-Cristo, além do inconsciente como matriz dos símbolos. Também é neste capítulo que Jung trabalha a importância da imaginação, dado que uma das técnicas da terapêutica junguiana é a imaginação ativa.

Em uma época na qual não havia uma psicologia empírica da alma era fatal que reinasse um tal concretismo: tudo o que era inconsciente se projetava na matéria, isto é, vinha de fora ao encontro do ser humano. Tratava-se de certa forma de um híbrido, meio espiritual, meio físico, concretização que não raro encontramos na psicologia dos primitivos. Assim sendo, a ‘imaginatio’ ou ato de imaginar também é uma atividade física que pode ser encaixada no ciclo das mutações materiais; pode ser causa das mesmas ou então pode ser por elas causada. Deste modo, o alquimista estava numa relação não só com o inconsciente, mas diretamente com a matéria que ele esperava transformar mediante a imaginação (JUNG, 2012, p. 297-98).

            Este é um livro de fôlego e ao qual se deve debruçar sobre as suas páginas com a devida seriedade e mínimo conhecimento de causa para que possa retornar da sua leitura consciente do intenso e profundo mergulho simbólico que acabara de fazer. Isto, justamente pelo fato de o Jung fazer um amplo uso do método da amplificação simbólica para poder nos auxiliar a desbravar esse mundo tão misterioso quanto o dos alquimistas medievais. Este é um livro fundamental para entender as direções que a obra de C. G. Jung tomou nos últimos 30 anos de sua vida e todas as obras que vieram após o seu contato com a alquimia.
            Agradeço a Editora Vozes pela parceria para que eu pudesse produzir a resenha deste livro.
Recife, 18 de maio de 2017

Elaborada por Anderson Santiago
Notas
1 – Corrente filosófico-espiritualista existente no período entre 120 e 240 d. C. Na opinião de Hermínio Miranda, em seu livro O Evangelho gnóstico de Tomé (Editora Lachêtre, 1995, p. 44): “[...] convém ter em mente entre a gnose, como trabalho de busca interior e auto-iluminação, que nada tem a ver formalmente com instituições religiosas, e o gnosticismo, denominação atribuída ao movimento gnóstico que ocupa na história do cristianismo, espaço de tempo que vai de 120 a 240 d. C.”
2 – Quem adota este modo de se referir às obras do Jung é o Roberto Gambini. Ele afirma que o correto é Obras Coligidas “e não ‘Obras Completas’, como erroneamente é traduzido ‘Collected Works’ ou ‘Gesammelte Werke’ na edição brasileira da Editora Vozes. Ainda permanecem inéditos textos que, quando vierem a público, comporão talvez trinta volumes, e não apenas os vinte já publicados” (GAMBINI, R. 2008, p. 63).

Referências
GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. 2a edição. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
JUNG, C. G. Memórias, sonhos, reflexões. [Ed. especial]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
__________. Psicologia e alquimia. 6ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
MIRANDA, H. C. O Evangelho gnóstico de Tomé. Editora Lachêtre, 1995.
SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Resenha do livro O Cristianismo em C. G. Jung


Elaborada por Anderson Santiago

Dados do livro:
Código ISBN: 9788532653260
Formato: 13,7X21,0 cm
Acabamento: Brochura
Número páginas: 351
1ª edição
Ano de lançamento: 2016

Sinopse: Por que o cristianismo possui tamanha importância na obra de Jung? Como Jung o entende, principalmente no contexto de sua Teoria dos Arquétipos? Por que ele, como cientista que se interessava em primeira linha pela experiência religiosa, dedicou tanta atenção aos dogmas cristãos ou, mais especificamente, católicos, como a doutrina da Trindade e aos dogmas marianos, que muitas vezes são considerados o oposto da experiência religiosa viva? É possível adotar a sua concepção de forma acrítica e interpretá-la como versão atraente e fértil do cristianismo ou até mesmo como uma nova forma de fé cristã?
        
         Esta obra, O Cristianismo em C. G. Jung, vem acrescentar uma quantidade já significativa de informações ao campo de pesquisa entre a Psicologia Analítica e a Religião. O autor Henryk Machón é professor de filosofia e psicologia na Universidade Técnica de Oppeln na Polônia. Escreveu esta obra com a intenção de que ela servisse para representar o significado e a função do Cristianismo na obra de C. G. Jung, seja de maneira compreensiva, analisando toda a sua obra e o desenvolvimento do seu interesse pelos símbolos religiosos em geral e em específico dos cristãos; quanto crítica, ao apontar os possíveis equívocos e lacunas presentes na obra do psicólogo suíço.
         O primeiro capítulo aborda a biografia de Jung. Como lugar de nascimento de toda teoria junguiana, a obra aborda o quanto “a religião de ‘palavras vazias’ de seu pai” (MACHÓN, 2016, p. 305), as experiências mediúnicas da mãe e os debates teológicos dos tios com seu pai foram influência decisiva para o lugar de destaque dado para a experiência religiosa em sua vida e teoria psicológica. Analisa ainda o quanto a participação do jovem Jung na associação estudantil Zofingia teve importância  para a germinação das ideias que formarão a sua Teoria dos Arquétipos, assim como a formação em medicina e a atuação profissional enquanto psiquiatra. Relata ainda a hipervalorização da influência do pai da Psicanálise, Sigmund Freud, e o impacto do rompimento da amizade entre os dois na produção teórica de Jung.
         O segundo capítulo é dedicado à apresentação da base filosófica e psicológica do conceito de inconsciente coletivo. Este último possuindo extrema importância como base para a Teoria dos Arquétipos. Este capítulo apresenta o desenvolvimento das ideias sobre o inconsciente coletivo e os arquétipos desde as chamadas Palestras na Zofingia (documentos importantes para um maior aprofundamento sobre as raízes da sua fecunda teoria e que não estavam ao alcance do público), até seus contatos com filósofos e psicólogos como Platão, Kant, Nietzsche, Schopenhauer, William James, Carus e von Hartmann, para citar alguns.
         O terceiro capítulo aborda os aspectos teóricos do diálogo entre a Psicologia Analítica e o Cristianismo. Apresenta um esboço histórico das pesquisas junguianas sobre o tema até as suas reflexões tendo por base a Teoria dos Arquétipos. Neste capítulo o autor esboça cronologicamente o crescente interesse de Jung pelo Cristianismo como objeto de pesquisa, especialmente pelo Catolicismo, pelo potencial simbólico, a função religiosa da alma e a relação entre a religião e os arquétipos. Além disso, o capítulo aborda a questão da discussão em torno da trindade versus a quaternidade e sobre Deus.
         No quarto capítulo se propõe a discursar sobre a importância dos símbolos dogmáticos e atos rituais do cristianismo como meios adequados para a ação do inconsciente coletivo e as implicações para a prática terapêutica. Relata ainda a discussão sobre as várias formas da experiência religiosa, a proximidade entre as formas de aconselhamento espiritual (mesmo que limitada) e a psicoterapia, justamente pelo fato de que para Jung “as religiões são terapias não por serem religiões, mas pelo fato de, nelas, as forças curadoras do inconsciente agirem de forma especialmente frutífera” (MACHÓN, 2016, p. 301).
A conclusão é dedicada a retomar os principais pontos de cada um dos capítulos e a apontar as possibilidades, no entendimento do autor, de se continuar a pesquisa. Machón considera o livro um estudo introdutório e que outros adicionais são necessários, seja para analisar a compreensão que Jung tem de algum dogma cristão em específico; seja de outros fenômenos religiosos, como o budismo e a gnose por exemplo.
Este é um livro que deve ser alvo de uma leitura atenta e profunda, dada a quantidade de informações que o autor conseguiu condensar em pouco mais de trezentas páginas. Ele trata com bastante cuidado a teoria junguiana sem cair numa apologética como as muitas obras já existentes no mercado editorial e se permite elencar argumentos críticos bem interessantes para nos instigar a repensar determinados pontos da teoria psicológica junguiana. Contudo, naquilo que concerne ao objetivo do livro senti falta de uma verdadeira atenção à importância da Alquimia na virada epistemológica junguiana e na forma como C. G. Jung se propõe analisar o fenômeno religioso e, mais especialmente, o cristianismo, objetivo maior do presente estudo. Até porque ao analisar os temas da trindade e da quaternidade, e suas influências nas discussões a que C. G. Jung se propõe não há como ignorar as implicações dos estudos empreendidos sobre a alquimia e que culminaram em duas volumosas obras: Psicologia e Alquimia (vol. 12) e Estudos Alquímicos (vol. 13). Enfim, deve-se considerar O Cristianismo em C. G. Jung, uma obra para ser estudada com carinho e com a certeza de que agregará valor a qualquer amante da psicologia, principalmente a junguiana. 

Trechos do livro:
O tema do cristianismo, ampliado pelo fato de esboçar a compreensão que Jung tem da religião, é analisado com base tanto no corpus principal dedicado a este tema quanto nos fragmentos menores e dispersos também nas cartas. Nestes últimos, muitos autores, inclusive o fundador da Psicologia Analítica, permitem-se um estilo mais casual, e, por conseguinte, uma linguagem mais clara, o que lança luz sobre teses do corpus principal (MACHÓN, 2016, p. 304).
A teoria multifacetada de Jung só pode ser entendida e interpretada em perspectiva interdisciplinar. Por isso o autor deste estudo analisa camadas – psicológica, filosófica e teológica -, levando em consideração sua metodologia científica (MACHÓN, 2016, p. 304).

         Agradeço a Editora Vozes pela parceria para que eu pudesse produzir a resenha tanto deste livro, quanto do próximo: Psicologia e Alquimia (volume 12 das “Obras Completas”).


Recife, 17 de março de 2017

Elaborada por Anderson Santiago

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Entrevista / Rádio Folha FM 96,7



Estivemos presentes hoje na Rádio Folha FM 96,7 participando do programa de Jota Batista e abordando o tema da palestra que estaremos apresentando amanhã, dia 24/01/2017, cujo título é Relações entre transtornos mentais e as tentativas de suicídio: caminhos para a prevenção.

Ela acontecerá no IPPEP - Instituto de Práticas Educacionais e Psicológicas e faz parte da agenda de ações da campanha Janeiro Branco.

A entrevista ainda contou com a presença da psiquiatra Maria Cláudia dá Cruz Pires.

Segue abaixo o cartaz dá palestra e os áudios dá entrevista.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Breves notas sobre a vida e a obra de C. G. Jung


             Carl Gustav Jung nasce em 26 de julho de 1875, na Suíça. Filho de Paul Achilles Jung (1842-1896) e Emillie Preiswerk (1848-1923), ele cresce envolvido por questões religiosas pelo fato da religião estar inserida no cotidiano da família: além de seu pai que era pastor luterano e dois tios paternos, seu avô materno e seis tios exerciam o ofício religioso. Contudo, embora este ambiente vá influenciar o modo como o jovem Jung irá lidar com o tema da religião em seus estudos e prática profissional, não há nenhum registro de que ele tenha professado nenhuma confissão religiosa nem demonstrado nenhuma vinculação com alguma denominação. Vale mencionar a existência de seu avô paterno, Carl Gustav Jung, cuja existência foi marcada pelas suspeitas de ser filho ilegítimo do famoso poeta e pensador alemão Goethe, além de ter sido notável pensador, médico e pesquisador envolvido com a temática religiosa.
            Embora Jung tenha tido uma infância marcada pela pobreza, seu pai sempre se esforçou para que o filho pudesse ter acesso ao conhecimento. Quando Jung decidiu cursar medicina na Universidade da Basiléia (onde viria a ser professor posteriormente), seu pai conseguiu uma bolsa para que ele pudesse estudar com calma dada a dificuldade financeira por que passavam. De acordo com Roth (2011), durante a graduação Jung participou da mesma associação estudantil que seu pai havia participado quando estudou na mesma universidade, a Zoofingia e foi lá que ele “deu as suas primeiras conferências sobre teologia e psicologia” (ROTH, 2011, p. 21). De acordo com Ellenberger (1973 citado por ROTH, 2011) é durante este período que Jung irá iniciar a elaboração das principais ideias que irão constituir a sua vasta obra.
            Ao final da graduação, quando todos pensavam que ele se especializaria em clínica médica, devido ao fato de já haver recebido um convite de um professor para ser seu assistente, eis que Jung surpreende a todos ao anunciar que seria psiquiatra (SILVEIRA, 2011).
Ele conclui o curso em 1900 e, aos 25 anos, ainda no mesmo ano se instala no em Zurique, onde foi ocupar o cargo de segundo assistente no hospital psiquiátrico Burgholzli” (SILVEIRA, 2011, p. 13). Esta instituição era neste período uma referência em saúde mental e estava sob a direção do famoso psiquiatra Eugen Bleuler.
            O período no Burgholzli foi bastante intenso e produtivo para Jung. Assim que chegou seu objetivo era responder a esta questão que ele formulara: “o que se passa no espírito do doente mental? ” (JUNG, 2012, p. 154). Todas as suas obras produzidas durante este período têm por objetivo lhe ajudar a formular uma resposta adequada a esta pergunta. Todas as obras escritas durante os anos de 1902 a 1908 compõem os três primeiros volumes das suas Obras Completas. Elas se iniciam com a sua tese de doutoramento, cujo título é Psicologia e patologia dos fenômenos ditos ocultos onde ele se propõe a analisar uma paciente a quem se acusava de possuir faculdades mediúnicas. Posteriormente se descobriu ser sua prima o objeto dos seus estudos.

“[...] Em 1906, (ele publica) seu livro Estudos sobre as associações. Em 1907 apareceu Psicologia da demência precoce, e a seguir, 1908, O conteúdo das psicoses, trabalhos que demonstram que todos os sintomas psicóticos encerram significações” (SILVEIRA, 2011, p. 29)

            Ainda durante este período ele desenvolve pesquisas em torno do que seria conhecido como o seu método de associação de palavras, dadas as inúmeras modificações introduzidas por ele neste teste. O desenvolvimento deste método permitiu que Jung pudesse se nortear com mais clareza quanto ao tratamento que deveria dispensar às psicoses (PERRONE, 2008). Os resultados destas pesquisas o levam a afirmar que “na demência precoce não há sintoma que seja desprovido de base psicológica e significação. Mesmo as mais absurdas de suas manifestações são símbolos de pensamentos que não só podem ser compreendidos em termos humanos mas também existem dentro de cada homem” (JUNG citado por SILVEIRA, 2011, p. 28-29). Em virtude dos desdobramentos das pesquisas em torno do método de associação de palavras, Jung adquire fama internacional, de tal forma que em 1909 ele é convidado pela Clarck University para apresentar os resultados das suas pesquisas ao mesmo tempo em que Freud recebia o mesmo convite para apresentar as famosas Cinco Conferências sobre a Psicanálise.
            Em 1903 Jung casa com Emma Rauschenbach, com quem terá cinco filhos além de uma companhia muito interessada pelos problemas da psicologia. Ela irá desenvolver estudos sobre a Lenda do Graal e publicará um livro sobre os arquétipos da Anima e Animus.
            Em 1906 Jung entra em contato com o famoso neurologista Sigmund Freud, criador ainda jovem Psicanálise, mas somente em 1907 se dará o primeiro encontro pessoal entre ambos. Encontro este marcado de forma intensa pelo fato de que a primeira conversa entre os grandes pensadores durou nada menos que 13 horas. Jung havia tomado contato com a obra do Freud ainda em 1900, no ano de lançamento da obra seminal da Psicanálise A interpretação dos sonhos, e viria a estudar a mesma em 1903 com seus colegas psiquiatras no Burgholzli. Esta primeira longa conversa representa o tom de uma intensa troca que se estabeleceria entre ambos, com Jung mantendo-se na postura de pesquisador independente e com Freud tentando enquadrá-lo entre os seus discípulos, chamando-o inclusive de “príncipe herdeiro” (cabe destacar o fato de Freud ser quase quinze anos mais velho).
            Embora Jung tenha assumido um papel de suma importância dentro do movimento psicanalítico nascente, ele nunca deixou de se posicionar criticamente em torno dos postulados da psicanálise. Em 1906 quando publicou seu livro Psicologia da demência precoce, já no prefácio ele assume uma posição que não abandonaria nos quase 7 anos de colaboração com o pai da psicanálise:

“Fazer justiça a Freud não implica, como muitos temem, submissão incondicional a um dogma; pode-se muito bem manter um julgamento independente. Se eu, por exemplo, aceito os mecanismos complexos dos sonhos e da histeria, isso não significa que atribua ao trauma infantil a importância exclusiva que Freud parece conceder-lhe. Ainda menos isso significa que eu coloque a sexualidade tão predominantemente no primeiro plano ou que lhe atribua a universalidade psicológica que Freud lhe atribui, dado o papel enorme que, decerto, a sexualidade desempenha na psique” (citado por SILVEIRA, 2011, p. 38).

            Contudo, é em 1913 que a relação profissional e pessoal entre Jung e Freud será abalada de uma vez por todas quando aquele publica a segunda parte da obra Transformações e símbolos da libido (posteriormente rebatizada de Símbolos da transformação). Eis um trecho da obra como exemplo:

Ao invés da teoria sexual [...], pareceu-me mais adequado um conceito energético. Ele me tornou possível identificar a expressão “energia psíquica” com o termo “libido”. [...] Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono, sexualidade, e os estados emocionais, os afetos, que constituem a natureza da libido” (JUNG, 2013, parágrafo 194).

            Com a publicação desta obra Jung reafirma seu posicionamento como pesquisador independente. Contudo, o rompimento também lhe afeta profundamente a nível pessoal e profissional. Inicia-se a partir deste momento um período de intensa ativação do inconsciente, com visões, sonhos e profundas experiências interiores (SILVEIRA, 2011). O próprio Jung afirma em sua autobiografia que “foram necessários 45 anos para elaborar e inscrever no quadro de minha obra científica os elementos que vivi e anotei nessa época da minha vida” (2012, p. 246).
            Este foi um período marcado por profunda introspecção e onde ele se ateve ao essencial, o mínimo de atendimentos, o distanciamento do mundo acadêmico, o contato com a família. Conforme Silveira (2011, p. 17) os “elementos dessas sofridas experiências [...] viriam a ser a base de toda a sua teoria psicológica e de seus métodos terapêuticos”. Neste período Jung escreve, entre outros textos, A psicologia do inconsciente em 1917, onde ele elabora as ideias que vão culminar na noção de um inconsciente coletivo e nos tipos psicológicos. De acordo com Jung, esta obra (Tipos psicológicos, publicada em 1920) “trata principalmente do confronto do indivíduo com o mundo, das suas relações com os homens e coisas” (JUNG, 2012, p. 254)
            Em seguida ele se põe a reexaminar suas “intuições, vivências pessoais e observações clínicas referentes ao inconsciente coletivo” (SILVEIRA, 2011, p. 18). Em 1934 ele publica um ensaio intitulado “arquétipos do inconsciente coletivo” e que passa por uma reformulação até sua versão final publicada vinte anos depois com o título Os arquétipos e o inconsciente coletivo.
            Estes estudos foram enriquecidos e aprofundados com as viagens que o Jung fez primeiro para a África do Norte, depois para o Novo México nos EUA, onde foi visitar os índios Pueblo, depois para o Quênia e Uganda, Índia e, por fim, Ravena e Roma. De acordo com Silveira (2011, p. 18):

“De suas viagens, Jung trouxe muito mais do que a imagem do branco (que ele compara com aves de rapina) refletida nos olhos dos colonizados, a análise das reações do europeu no mundo selvagem ou importantes aquisições referentes à psicologia do primitivo. Trouxe a descoberta da significação cósmica da consciência”.

            Essa descoberta levou Jung a “encontrar as raízes históricas das experiências interiores que percebia em si próprio e em seus pacientes” (CAVALCANTI, 2007, p. 49). Pouco antes de publicar sua obra Tipos Psicológicos ele retoma os estudos sobre os gnósticos como forma de tentar relacioná-las às suas concepções psicológicas. Contudo, ainda faltava algo. E essa ponte que faltava ele irá encontrar na Alquimia. Esse encontro se dá no momento em que ganhou de presente um livro sobre alquimia chinesa chamado O segredo da flor de ouro, dado pelo seu amigo sinólogo Richard Wilhelm em 1928 (CAVALCANTI, 2007). Neste momento, Jung compreendeu, com a alquimia:

“[...] O inconsciente como ‘um processo, e que as relações do ego com os conteúdos do inconsciente desencadeiam um desenvolvimento ou uma verdadeira metamorfose da psique. Nos casos individuais é possível seguir este processo através dos sonhos e fantasias. No mundo coletivo, tal processo se encontra inscrito nos diferentes sistemas religiosos e na transformação de seus símbolos’” (CAVALCANTI, 2007, p. 50).

            A partir desta compreensão Jung inicia o seu período mais profundo e produtivo. São obras deste período Psicologia e Alquimia, Estudos Alquímicos, Aion, Mysterim Coniunctionis, Psicologia da transferência, Resposta a Jó, Psicologia e Religião, entre outras. Esse período também é marcado por alguns problemas de saúde e uma perda irreparável para Jung. Em 1855, Emma Jung, até então sua companheira fiel (mesmo com todas as polêmicas envolvendo os nomes de Sabina Spielrein e Toni Wolf), vem a falecer. Jung fica desolado, mas consegue reunir forças para seguir em frente e ainda produzir mais duas pérolas antes de fechar seus olhos pela última vez neste mundo: a sua autobiografia Memórias, sonhos e reflexões, altamente criticada quando se percebeu as enormes alterações feitas pela sua secretária Aniella Jaffé junto com a sua família e o livro que indico com todas as minhas forças arquetípicas O homem e seus símbolos, livro este que foi concretizado após a sugestão insistente do jornalista John Freeman após este tê-lo entrevistado em 1959 (entrevista exibida pela BBC de Londres). Contudo, o que o convenceu de verdade fora um sonho que teve onde ele falava para uma multidão composta de pessoas não especialistas e que compreendiam tudo o que ele dizia. E faltando exatamente dez dias antes de falecer, Jung entrega a sua parte do livro que comporia o primeiro capítulo, após já ter elaborado junto com quatro outros colaboradores de sua inteira confiança o esboço de toda obra.
Em 1961 Jung fecharia pela última vez seus olhos, com a certeza de que aquilo que falou em suas Memórias estava pleno de verdade: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou” (JUNG, 2012, p. 31). E quem estuda toda a sua obra com seriedade e profundidade há de concordar com o fato de que ele estava coberto de razão ao iniciar a sua autobiografia desta forma!

Referências:

CAVALCANTI, Tito R. de A. Jung (Folha explica). São Paulo: Publifolha, 2007. Disponível em: https://groups.google.com/forum/#!topic/livros-virtuais/4ies1V5LhHw
JUNG, C. G. Memórias, sonhos, reflexões. Edição especial (Saraiva de bolso). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
PERRONE, Maria P. M. S. B. Complexo: conceito fundante na construção da psicologia de Carl Gustav Jung. 2008. Tese de doutorado. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-30072009-135120/pt-br.php
ROTH, Wolfgang. Introdução à psicologia de C. G. Jung. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Os sonhos e a dimensão arquetípica da terapia (legendado)



Neste vídeo C. G. Jung expõe através de um exemplo a maneira como enxergava a dimensão arquetípica nos sonhos e o momento de se revelar ao paciente, na psicoterapia, algo expresso pelo seu inconsciente.

Trecho do Filme: Questão do Coração

domingo, 3 de abril de 2016

O início

Olá, tudo bem?
Meu nome é Anderson, sou psicólogo, palestrante e estudante da Psicologia Analítica. Criei este blog com o intuito de poder compartilhar as minhas ideias e reflexões. Pensei neste espaço como uma tribuna aberta, que permita o diálogo e a troca de opiniões sobre este amplo e fantástico universo de conhecimentos que permeiam o mundo da Psicologia Analitica de Carl Gustav Jung. Além dos textos, também postarei links dos vídeos que irei postando no meu canal no Youtube. Também possuo uma pagina no facebook (www.facebook.com/temenosjung) onde compartilho informações sobre o universo junguiano
Tudo o que for postado neste blog tem como objetivo maior provocar o desenvolvimento pessoal tanto meu, quanto de quem me lê. Aqui falarei sobre Psicologia, Espiritualidade/Religiosidade (um tema sempre cercado por muita incompreensão dentro da Psicologia e que vem sendo alvo de importantes estudos que o colocam no centro de pesquisas que avaliam bem-estar, qualidade de vida, prevenção e pósvenção ao suicídio além de maior longevidade, entre outros), Mitologia, Filosofia, etc.
O nome da página, temenos, vem do grego e significa “recinto sagrado de um templo ou altar”. Ou seja, é um recinto que delimita e ao mesmo tempo faz subsistir o espaço sagrado. Metaforicamente, utilizamos este símbolo para representar o setting terapêutico, pelo fato deste se constituir como um campo transformador, um local que acolhe e que transmite a segurança necessária para que o encontro analítico.
         Então, espero que mesmo virtualmente este possa se tornar o seu temenos.
         Um fraterno abraço e até o próximo post!


Ps: fique à vontade para comentar e sugerir temas. Sua participação será sempre muito importante!